O jornal gaúcho Zero Hora promoveu nas últimas semanas uma eleição para definir três obras prioritárias para o Rio Grande do Sul, que merecerão acompanhamento de perto da equipe. O pleito é um dos eventos de comemoração pelos 45 anos do jornal. Foram computados cerca de 230 mil votos no total, em todo Estado. A notícia que informa os projetos vencedores (metrô de Porto Alegre, duplicação da BR-386 e a nova ponte entre Brasil e Argentina no noroeste) promete:
A partir de agora, Zero Hora vai acompanhar, fiscalizar e cobrar por meio de reportagens periódicas a realização das melhorias que os rio-grandenses exigem. A cobertura jornalística só será encerrada quando for cortada a fita de inauguração da última obra a ser concluída.
À primeira vista, pode-se pensar que essa eleição seja uma janela aberta para a interferência direta do cidadão no noticiário, permitida pelo milagre da moderna tecnologia. Em minha opinião, trata-se de falsa democratização da comunicação. O que é decepcionante, já que a Zero Hora tem um dos melhores projetos de participação do leitor no Brasil. No Leitor-Repórter, as pessoas não apenas publicam suas informações, como os repórteres de ZH muitas vezes encampam a pauta e tentam contato com setores do governo e empresas vinculados ao problema. No caso dessa eleição, porém, não há verdadeira interação mútua com os leitores, mas um caso de interação reativa, para usar a terminologia de Alex Primo.
Em primeiro lugar, ZH pré-definiu as possibilidades de escolha. Os leitores podem votar em um dos 15 projetos listados, mas não podem incluir sugestões. No fundo, essa eleição não difere muito de uma enquete esportiva ou mesmo da escolha entre “sim” e “não” do falecido programa Você Decide, ou pela defenestração de um participante qualquer do Big Brother Brasil. Há mais possibilidades, mas o poder real de administração da pauta jornalística fica nas mãos da redação. No entanto, quem garante que esses 15 projetos são realmente os mais importantes para a população do Rio Grande do Sul?
A própria votação é falaciosa. A vitória do projeto para construção de um metrô em Porto Alegre, por exemplo, era esperada, já que mais da metade da população gaúcha vive na região metropolitana e tenderia a votar no único projeto representando a região. O mesmo ocorre com o projeto eleito pela região de Passo Fundo, uma das mais populosas do Estado. Além disso, uma obra da importância do metrô mereceria cobertura aprofundada por sua alta concentração de valores-notícia, portanto não deveria nem constar entre os candidatos.
Essa última observação exige um comentário a respeito do papel de Zero Hora como o principal jornal do Rio Grande do Sul. Realizar um acompanhamento extenso do desenrolar dos 15 projetos apresentados à votação da audiência não seria mais do que obrigação do veículo, em termos de valores da profissão jornalística. Delegar ao público a escolha por uma ou outra pauta, nesse caso, é abrir mão da responsabilidade que se espera de empresas jornalísticas — e deixando essa irresponsabilidade bastante clara para o próprio público.
Hoje a participação da audiência se tornou um dos cálices sagrados do jornalismo. Há a esperança de recriar os laços afetivos que os cidadãos de gerações passadas mantinham com os veículos de imprensa. Muitas empresas, no entanto, tentam entornar o cálice com afobação demais, sem compreender os significados mais profundos dos modelos colaborativos de jornalismo. As tecnologias de comunicação mediada por computador permitem pela primeira vez na história uma interferência eficiente do cidadão no noticiário. Em minha opinião, esse é um passo adiante para a democracia. Por isso mesmo, é preciso evitar a reificação do conceito de participação, o que me parece ser o caso da eleição proposta por Zero Hora.
Por Marcelo Träsel
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